segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A DANÇA DO TEMPO SEGUNDA PARTE

PRIMAVERA ANSIOSA
Naldo Velho

Silencioso e friorento,
nasce o dia em meu quarto
e com ele um céu de preguiça
povoado por nuvens esparsas.
Umidade relativa do ar
muito maior do que se pensa!

Pela janela um vento macio
acaricia o mês de setembro
e num café quente e encorpado
amanheço atrasado nas horas.
E a cidade orvalhada lá fora
alimenta o poema que eu tento.

Sinfonia de fim de inverno
em harmonias repletas de sonhos
que pássaros precursores revelam.

Primavera nos acena ansiosa,
e do horizonte orgulhosa exclama:
não morrerá a luz dos seus olhos!



AO ESCREVER POEMAS
Naldo Velho

Tenho a mão pesada ao escrever poemas,
abro, no papel, profundos sulcos,
tipo, leito de um rio, por onde navegam
palavras, pensamentos, histórias,
coisas colhidas nas trilhas desta vida.

Não acaricio as palavras, espremo-as,
até ter delas seu sumo, seus significados.
Uso cores agressivas, por vezes exuberantes,
quando tento passar uma mensagem.

Quando falo de saudade prefiro o cinza,
nostalgia navega em branco e preto
e a revolta em águas barrentas, sempre!
Estou mais para a realidade,
a vida me fez assim!

Tenho a mão pesada aos escrever poemas,
machuco o papel, até perceber que ali existe
sangue, suor, saliva, sentimento.
Não sei escrever sem expor feridas.

Parir versos é remexer nas entranhas,
é cutucar cicatrizes, fazê-las ardidas,
só assim o poema sobrevive
e eu consigo exorcizar minha dor.



NUANCES
Naldo Velho

E tem esta consistência pedra
lapidada pela força das águas,
corredeiras de um rio que nasce
antes do que a vista alcança
e do que se possa imaginar.

E tem esta aspereza casca
de árvore que percebo tombada
e pelo tempo, assim, petrificada,
na beira de um rio que um dia
eu sonho navegar.

E tem esta umidade limo
que brota das ranhuras das pedras
e em torno delas surgem fungos,
pequenos organismos estranhos,
vida que costumo observar.

Mas tem também esta delicadeza asas
de pássaros em animada conversa,
algazarra de cores e cantos,
e o rio que passa alimenta
a poesia que tenho pra mostrar. 

E finalmente esta sutileza pétala
de brisa suave a emoldurar a tarde,
de águas macias de beira de um rio,
de carinho esperado da mulher sedenta
do amor que um dia eu vou saber ofertar



ARMÁRIOS NÃO DEVERIAM TER PORTAS
Naldo Velho

Armários não deveriam ter portas!
Ficaríamos muito mais arejados,
nossos guardados livres das sombras,
da umidade sufocante e do mofo,
e nossos pecados poderiam
florescer impunemente.

Armários não deveriam ter portas!
Que escondessem cicatrizes e medos,
cadáveres desossados, segredos,
adagas ainda sujas de sangue,
e o nosso passado poderia
então circular impunemente

Armários não deveriam ter portas,
fundos falsos, gavetas trancadas
a sete chaves, tamanhas mentiras,
inquietudes, ansiedade, loucura,
coisas que na realidade não nos pertencem
e só servem para nublar o presente,
e fazer do futuro uma obra de ficção.



HÁ UM TEMPO
Naldo Velho

Há um tempo vazio em meus pensamentos,
securas de sonhos, lacunas estranhas,
estiagem de versos, de lágrimas, de gestos.

Há um tempo nublado, fim de tarde outono,
vento frio que varre, prenúncio de inverno,
chuva fina que chega e embaça a vidraça.

Há um tempo de insônia, madrugada inquieta,
luz do quarto acesa, rua deserta, tristeza,
é a palavra verdade que renasce entre escombros.

Há um tempo de dor ao rever os meus passos,
deixei por lá muitos rastros, vestígios, escolhas,
muitas delas erradas, indelicadezas!

Há um tempo eu penso que ainda existe algum tempo
para limpar meus armários, exorcizar meus demônios,
abrir as janelas, dar um jeito em meu quarto.

Há um tempo que eu tenho para achar as respostas,
descobrir sobre as chaves que abram as portas,
libertar a pessoa que eu sempre quis ser.

Há um tempo que eu quero dizer que Te amo,
pode ser que eu possa resgatar os meus sonhos,
pode ser que eu chore aconchegado em Teus braços.

Há um tempo que eu preciso para terminar de viver.



POEMA ANACRÔNICO
Naldo Velho

Há uma subserviência secular
nas dobradiças de uma porta
que sempre se dobram
quando alguém deseja passar.

Ainda bem que existe a fechadura
que sabiamente exige
que se tenha a chave certa.

Pena que exista sempre aquele
que pensa que pode forçar passagem,
ainda que ali não seja o seu lugar.

Há uma rebeldia perversa
no vento que me invade a tarde
e traz maresia da orla,
e faz despertar a saudade.

Ainda bem que existe o poema
que sabiamente enxuga
as lágrimas que eu choro agora.

Pena que exista sempre um vestígio
que tenta se alojar à vontade,
ainda que não seja a hora nem o lugar.

Há um quê de transgressão
nas coisas que eu já não ouso sonhar!



HEI DE MORRER JOVEM
Naldo Velho

Hei de morrer jovem,
na flor dos nem sei quanto anos,
com as costas arqueadas
pelo peso de uma vida,
e as pernas enfraquecidas
por trilhas, atalhos, estradas.

Hei de morrer jovem,
na flor dos meus desenganos,
com os olhos, assim, embaçados
por conta do quanto enxerguei
e a pele toda enrugada
pelo muito que semeei.

Hei de morrer certamente,
ainda que permaneçam os espinhos,
pois embora não te pareça,
jovem ainda estarei!
Pois esta foi minha escolha,
meu rito sagrado, minha lei.

Hei de morrer qualquer dia,
antes que seja tarde!
Mas só quando acabarem os poemas,
e tomara Deus que docemente!
Pois por mais que eu tenha pecado,
Ele sabe o quanto eu amei.



PALAVRAS OCIOSAS
Naldo Velho

Na parede da sala
um menino pastoreia um bando de ovelhas,
ao lado, águas claras de um rio
que margeiam uma cidade.

No parapeito da janela
um pequeno grupo de pássaros
a comentar as notícias de ontem;
aquelas que ainda nem tive tempo de ler.

Em cima da mesa, num jarro de flores,
pencas de monsenhor branco.
Protegida sob o teto, lado esquerdo, lá no canto,
uma aranha constrói sua teia.

Manhã de domingo, de sol inteiro lá fora,
e um cheiro de café bem forte
toma conta do ambiente...

Em cima da mesa, ao lado das flores,
numa folha de papel preguiçosa,
palavras ociosas buscam um entendimento.

Estranho!
Quando comecei esta prosa
tinha algo importante a dizer,
só não lembro mais o quê!



POEMA CORPO
Naldo Velho

Vontade de escrever um poema corpo,
um que tivesse duas pernas
que pudessem encurtar distâncias,
dobrar esquinas, explorar atalhos,
pois ainda que vez por outra se percam
palavras precisam caminhar.

E que tivesse também muitos braços...
Palavras abraçadas ecoam,
fazem luzir seus significados,
são tessituras que julgo mágicas
sobre algo que é preciso expor.

Vontade de escrever um poema corpo,
um que tivesse vários olhos
que brilhassem no meio da escuridão,
que iluminassem o caminho das pessoas
pois ainda que confusas as trilhas desta vida,
palavras precisam enxergar por entre escombros.

E que tivesse também um coração transgressor...
Palavras precisam ser libertárias,
abrir comportas, derrubar paredes,
derramar as histórias e desfazer os nós
de cada um de nós.

Vontade de escrever um poema corpo... 



VERSO ESMIRRADINHO
Naldo Velho

Ando sofrendo de verso “esmirradinho”,
feito lua minguante, maré vazante na areia,
instante aprisionado entre a noite e o dia,
vontade de não dizer nada, colocar o pé na estrada
e sem adeus viajar pra dentro de mim.

Ando sofrendo das inutilidades
e qualquer coisa que se diga carece de importância,
sensação de vazio, gastura, clausura, estio,
vontade de ficar embrulhado nesta teia de aranha,
até que o veneno inoculado possa dar um fim em mim.

Ando sofrendo de poema morto,
palavras veladas sobre a pedra fria,
velas acesas, lágrimas, muita oração,
e o poeta precisando de cuidados,
parto encruado, prisão de ventre, constipação.



COMEÇAR TUDO OUTRA VEZ
Naldo Velho

Vento que venta apressado
e revira meus guardados
em busca de evidências
que possam revelar a origem
do estrago que causou os escombros
que vivem de entulhar meus caminhos...
Diz se você viu o poema que eu tento
escondido por aí!

Aproveita e remove a poeira
que impede que os significados
brilhem ao serem tocados,
pois as palavras
que carinhosamente eu guardo
anseiam por derramamentos
e do jeito que andam embaçadas,
ninguém vai conseguir entender.

Vento que venta apressado,
afasta de vez a estiagem
que tanto sufoca o poeta
embaraçado num monte de teias
que o tempo armou para mim,
e mostra que o poeta é um louco
mestre dos descaminhos,
capaz de muitos enganos,
mas tolo o suficiente
para começar tudo outra vez.



VERSOS ETÍLICOS
Naldo Velho

Palavras trôpegas, embriagadas,
espalhadas pelo chão do quarto,
vomitam no tapete, mijam no pé da cama,
gritam significados e estragos,
insistem em construir poemas,
versos etílicos, desconexos,
mistos de dor, loucura e valentia,
cismam em revelar segredos,
riem debochadamente dos meus medos,
desobedecem regras e rimas,
desafiam o tempo do verbo,
e choram a falta da mulher amada,
e a nostalgia colhida nas madrugadas,
na solidão que sobrevive às horas,
alcoólatras confessos que somos
viciados em falar do abandono.

A DANÇA DO TEMPO TERCEIRA PARTE

ACARICIANDO O SILÊNCIO
Naldo Velho

Existe um momento mágico
onde o poeta em contemplação
acaricia o silêncio
antes de transformá-lo em verbo.

Este instante único
que palavra alguma traduz,
é o sopro divino sobre algo
que ainda não existe
transformando-o em Luz.

A prova disto é a poema
que alimenta sentimentos sagrados
e faz do poeta um arauto,
mensageiro de tantos significados,
um ser ungido por forças
que a mão de Deus conduz.

E quando este poema está pronto
e não mais pertence ao poeta,
ele volta a acariciar o silêncio
a procura de sementes de versos,
observador privilegiado
do que a existência produz.



LUA NUBLADA
Naldo Velho

Lua nublada?
Vez em quando aparece,
quase sempre se esconde.
Madrugada de outono,
onde o silêncio enlouquece
e a cidade não dá conta
de como é feio o abandono.

Ruas desertas, esquinas vazias,
portas e janelas fechadas
e alguns poucos carros
passam e não param.

Ainda existe o orvalho,
mais para lágrima discreta.
Ainda existe a espera,
coisa estranha e inquieta.

Lua nublada?
Já foi cheia e exibida
dentro do meu quarto,
já dançou noites de insônia,
bebeu todo o meu absinto,
fez juras de amor eterno
e depois minguou.
Hoje é só nublada:
vez em quanto aparece,
quase sempre se esconde.



POETA É UMA MERDA!
Naldo Velho

Tem certas palavras
que vivem de “foder” o juízo!
Devoram entranhas,
matam aos pouquinhos.

A palavra inquietude é uma merda!
Devorou parte do meu fígado,
parte do pâncreas, o baço
e um pedaço do intestino.
Fez com que eu “descomesse”
palavras e significados,
tudo misturado numa massa pastosa
que alguns chamam de verso.

Pior do que ela,
só a palavra amargura,
Lembra coisa pesada,
e de solidez cristalizada,
em nódulos, abscessos...
Faz adormecer pedra
e acordar depressão.

Poeta é uma merda!
Ou vive da inquietude,
ou morre de solidão.



AUTOFAGIA
Naldo Velho

Lapidar frases,
trazer o tempo certo a cada verso,
viajar por metáforas, cultivar imagens,
descobrir a palavra exata
e sempre numa nova abordagem...
Ofício de poeta!

O resto?
A emoção, o conteúdo?
Coisa de ser humano!

O poema?
Filho bastardo desta grande putaria.

Santa promiscuidade:
o poeta devorando o homem,
e o homem a se alimentar do poema.
Autofagia!



NOSSAS TEIAS!
Naldo Velho

Pessoas envoltas em teias, em dramas,
esquecem o caminho, se atritam nas tramas,
e choram, reclamam, escondem seus rostos,
e vão, nem sei aonde, curar tanta dor.

Quanto veneno injetado em meu corpo,
o sangue anoitece e se arrasta no esgoto,
e o rio acontece, corredeiras no mangue...
Caminhos fechados, nem sei aonde vou.

Volto pra teia e grito o Teu nome!
Canto um mantra, quem sabe amanheço?
Quem sabe acordo: primavera, setembro,
janelas abertas e virei beija-flor?



COISAS NECESSÁRIAS
Naldo Velho

Certas transparências são necessárias ao destino,
quando o sol está pleno elas transbordam luz.
Necessária também uma certa fluidez,
coisas a serem tratadas pelo vento da manhã.

Seres opacos que vivem de poluir caminhos,
sonham um dia virar beija-flor,
até por isto muitos pensam ser poetas,
só por que vivem da fluidez da palavra
e da transparência de sua insensatez.

Palavras, fluídos, versos, transparências:
coisas a serem lapidadas pelo tempo,
tentativas inconscientes de se crescer pela dor.



POEMA DE AMOR PROSCRITO
Naldo Velho

Linhas traçadas
coexistências embaraçadas,
palavras entrelaçadas,
quarta gaveta, lado esquerdo do peito.
Poema de amor proscrito
entre o poeta e a meretriz.

Um bolero arrastado,
a compor tristemente o cenário,
uma garrafa de vinho tinto,
outra de Martine Bianco,
ambas, pra baixo da metade.
Marcas de batom no corpo,
na camisa e no copo.

Cinco horas da manhã!
O garçom sinaliza nervoso,
já é madrugada, faz frio lá fora,
peço a conta e percebo em teus olhos
um até breve, até quando?

Agora, já passam das seis!
Manhã nublada de maio,
um gole de café requentado,
não dá pra esquecer o cigarro,
nem o poema de amor proscrito,
banido antes mesmo
de ter sido escrito.
Melhor ir pra casa e dormir.



VACILOS DO CORAÇÃO
Naldo Velho

Cicatriz dolorida, dedo miúdo esquerdo.
Nunca mais descasquei cana, medo!
Vai que eu esqueço de novo
o pobre do mindinho esquerdo?

Cicatriz disfarçada, pálpebra do olho direito,
vez por outra arde, denuncia, faz alarde,
reclama da lágrima, diz que é cisco no olho.
Quem sabe um segredo?
Coração em degredo vez por outra ainda chora.
Escorrem versos, ponta dos dedos...
Gota a gota, segredos, meus medos.
Vai que eu esqueço a trilha
e me vejo de novo na rota do desassossego?

Melhor buscar frutas tenras,
não esquecer de evitar as ácidas!
Melhor usar óculos escuros...
Não esquecer do colírio!
Melhor permanecerem os versos,
vez por outra coração ainda vacila,
teima em buscar outras trilhas
e caí!
Haja coração!



SUA DOR
Naldo Velho

Este seu jeito pétala
de rosa já sem espinhos,
esquecida em cima da mesa.

Este seu jeito frágil
de rosa mais pra vermelha,
matizes de dor e incerteza.

Lá fora o dia chora
e a palidez da tarde
não revela sua beleza.

Melhor colocá-la num jarro,
logo, logo anoitece,
quem sabe as teclas de um piano,
apaziguado o pranto,
possam amenizar sua dor?



COISAS DA VIDA!
Naldo Velho

Limpo as feridas,
esterilizo a pinça,
retiro os espinhos.
Todo o cuidado é pouco,
feridas mal tratadas
costumam infeccionar.
Um anti-inflamatório ia bem!
Agora é só seguir adiante,
cicatrizes permanecerão.
Na mudança de tempo
vão incomodar,
só pra lembrar
que a pele ainda é fina.
No trato com as rosas,
ainda que lindas,
todo o cuidado é pouco...
Coisas da vida!



A PALAVRA PERFEITA
Naldo Velho

O poeta procura a palavra perfeita!
Uma que nos mostre em essência
todo o sentimento que se possa ter,
que seja capaz de ser levada bem distante
na bagagem de um beija-flor,
ou pelo vento que acaricia o poema
e suaviza o coração de quem pecou.

O poeta é um louco!
Vive da amplitude de suas vivências,
acredita ser o guardião das palavras,
diz conhecer o significado dos versos,
e ainda tem a pretensão de ser um escolhido,
alguém com licença para cometer heresias,
e ensinar quem pensa que vê, a saber perceber.

O poeta é um tolo!
Condenado a viver de procuras,
amaldiçoado pela querência de seus sonhos,
atormentado pela força do Verbo,
aprendiz na arte da solidão.